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Nas Profundezas do Insondável: Uma Jornada Sem Fim no Passado

O Caminho da Vida, de Caspar David Friedrich (1835).
Nascer da lua sobre o mar, de Caspar David Friedrich (1822).

“O fundo é o poço do passado. Não deveríamos antes dizer que ele é insondável?


Sim, insondável, se (e talvez somente neste caso) o passado a que nos referimos é meramente o passado da espécie humana, essa essência enigmática da qual nossas existências normalmente insatisfeitas e muito anormalmente míseras formam uma parte; o mistério dessa essência enigmática inclui por certo o nosso próprio mistério e é o alfa e o ômega de todos os nossos discursos e de todas as nossas questões, emprestando um imediatismo candente a tudo o que dizemos e um significado a todo o nosso problema.

Pois quanto mais fundo sondamos, quanto mais abaixo tentamos e calcamos o mundo inferior do passado, tanto mais comprovamos que as bases mais remotas da humanidade, de sua história e cultura, se revelam inescrutáveis. Por temerários que sejamos no comprimento que dermos à nossa sonda, ela se estira ainda, aprofundando-se cada vez mais. Não é sem razão que falamos em estirar-se e aprofundar-se, porquanto aquilo que é investigável, de certo modo, zomba dos nossos ardores inquisitivos; oferece pontos de apoio e metas aparentes, por trás das quais, depois que as atingimos, surgem ainda novas províncias do passado, tal como acontece a quem caminha ao longo da costa sem encontrar termo para sua caminhada, porque, por trás de cada promontório de duna argilosa que ele se esforça em chegar, pontas de terra inesperadas e novas distâncias continuam a negaceá-lo.”

Thomas Mann, em José e seus irmãos

Aquilo a que chamamos felicidade consiste na harmonia e na serenidade, na consciência de uma finalidade, numa orientação positiva, convencida e decidida do espírito, ou seja na paz da alma.

Thomas Mann

Reflexões Sobre o Passado e a Busca pelo Sentido

O passado, como nos alerta Thomas Mann em José e seus irmãos, é um território profundamente complexo e misterioso, um “poço” que desafia nossas tentativas de compreensão. No contexto da obra, o autor se dedica a explorar não apenas o passado histórico, mas o passado espiritual e psicológico da humanidade. Ele sugere que, quanto mais tentamos sondá-lo, mais ele se revela inescrutável, como se estivéssemos tentando decifrar algo que foge aos nossos limites. Mann propõe que o passado da humanidade — com suas falhas, desejos e ações — é algo que nunca podemos entender completamente. Ele é, de certa forma, uma extensão de nossa própria busca por identidade, por sentido, e por um propósito que transcenda o tempo.

O livro narra a história bíblica de José, um homem que, ao ser traído pelos irmãos e vendido como escravo, vive um ciclo de sofrimento e redenção que se desenrola ao longo das páginas. Mann, ao recontar esse relato, não apenas se aprofunda nas figuras históricas e bíblicas, mas também nos mergulha no psicológico dos personagens. O autor não se limita a contar os eventos, mas explora o impacto deles no espírito humano, criando uma reflexão sobre como o passado molda nosso presente, e como a história se entrelaça com nossa condição humana, com nossas angústias e ansiedades existenciais. A obra, então, se torna um convite para refletirmos sobre o eterno movimento da vida, sobre a busca por compreensão e perdão, e sobre como as ações humanas reverberam através dos tempos.

A metáfora do “fundo do poço” do passado, que Thomas Mann utiliza, se alinha diretamente com a ideia de que, por mais que tentemos entender a história humana, ela sempre será mais profunda e mais complexa do que imaginamos. Quanto mais buscamos significado, mais o mistério se expande. Em José e seus irmãos, o passado não é apenas um repositório de eventos, mas um campo fértil onde o enigma da humanidade se revela constantemente, se aprofundando em cada camada de reflexão. À medida que os personagens exploram seu próprio passado e seus conflitos, o leitor é convidado a questionar: até que ponto é possível conhecer realmente nossas origens, nossa identidade, nosso destino?

Essa ideia do passado como algo insondável também se reflete na pintura O Caminho da Vida, de Caspar David Friedrich. Criada em 1835, a obra reflete a jornada humana e a mortalidade, explorando o ciclo da vida, do nascimento à morte. O homem que caminha por uma paisagem dramática, cercado por figuras que representam sua família e, talvez, a si mesmo, é uma metáfora visual do percurso de cada ser humano. Como a jornada de José em Mann, o homem de Friedrich está envolto no mistério da existência, caminhando por um caminho incerto, mas imerso em uma busca constante por sentido. A vastidão da paisagem à sua frente sugere que, por mais que avancemos em nossa jornada, o caminho nunca chega a um fim definitivo, assim como o passado nunca se revela por completo.

No final, tanto o livro de Thomas Mann quanto a pintura de Friedrich nos lembram que nossa jornada no tempo e no espaço é, em última análise, uma busca sem fim. O passado, com sua complexidade e mistério, não é algo a ser plenamente compreendido, mas sim um campo contínuo de exploração e reflexão. E, como o homem na pintura de Friedrich ou como José em sua história, cada um de nós caminha por esse caminho, procurando respostas, mas encontrando sempre novos horizontes a explorar. O mistério da existência humana, tanto no nível pessoal quanto coletivo, é algo que nunca se revela completamente, e talvez esse seja o maior significado que podemos tirar da nossa jornada.

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O Progresso e a Morte do Espírito

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O Curso do Império: Destruição, de Thomas Cole (1833 - 1836).

“A morte do espírito é o preço do progresso. Nietzsche revelou esse mistério do apocalipse ocidental quando anunciou que Deus estava morto e que havia sido assassinado. Este assassinato gnóstico é constantemente cometido pelos homens que sacrificaram Deus à civilização. Quanto mais fervorosamente todas as energias humanas são lançadas no grande empreendimento da salvação através da ação imanente ao mundo, mais os seres humanos que se engajam neste empreendimento se afastam da vida do espírito.

E como a vida do espírito é a fonte da ordem no homem e na sociedade, o próprio sucesso de uma civilização gnóstica é a causa de seu declínio. Uma civilização pode, de fato, avançar e declinar ao mesmo tempo — mas não para sempre. Há um limite para o qual esse processo ambíguo se move; o limite é alcançado quando uma seita ativista que representa a verdade gnóstica organiza a civilização em um império sob seu domínio. O totalitarismo, definido como o domínio existencial dos ativistas gnósticos, é a forma final da civilização progressista.”

 Eric Voegelin

Em uma sociedade que busca progresso a qualquer custo, o espírito humano corre o risco de ser sacrificado. Voegelin nos alerta sobre o que ocorre quando tudo se torna uma corrida pelo “avanço”: a conexão com o espírito e a busca pelo sentido profundo tendem a se esvaziar.

Nietzsche capturou isso com a expressão “Deus está morto”. Não era uma afirmação literal, mas um diagnóstico da realidade espiritual de uma civilização que, ao priorizar o material, acaba perdendo seu eixo espiritual.

Voegelin adverte que, quanto mais nos afastamos dessa fonte espiritual, mais nos aproximamos de um vazio existencial e do totalitarismo — um estado em que a liberdade interior é substituída por controle externo. Esse é o risco de uma civilização gnóstica: a crença de que a salvação pode ser alcançada apenas pelo esforço humano, sem uma ordem superior.

Voegelin adverte que, quanto mais nos afastamos dessa fonte espiritual, mais nos aproximamos de um vazio existencial e do totalitarismo — um estado em que a liberdade interior é substituída por controle externo. Esse é o risco de uma civilização gnóstica: a crença de que a salvação pode ser alcançada apenas pelo esforço humano, sem uma ordem superior.

As coisas não acontecem no universo astrofísico; o universo, juntamente com todas as coisas nele fundadas, acontece em Deus.

Eric Voegelin

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A Verdadeira Face do Amor

Mesa para dois, por Ron Hicks.

“Amar é qualquer coisa de mais grave e significativo do que o entusiasmo pelas linhas de um rosto e a cor de uma face; é decidirmo-nos por um certo tipo de ser humano que é simbolicamente anunciado nos pormenores do rosto, da voz e dos gestos. O amor é uma escolha profunda.”

José Ortega y Gasset

“O amor é mestre, mas é preciso saber adquirí-lo, porque se adquire dificilmente, ao preço de um esforço prolongado; é preciso amar, de fato, não por um instante, mas até o fim.”

Fiódor Dostoiévski

Vivemos em uma época em que o amor muitas vezes é reduzido a curtidas em aplicativos de encontros e impressões superficiais. Nesse cenário volátil, Ortega y Gasset e Dostoiévski oferecem uma visão profunda e atemporal: o amor verdadeiro transcende a estética e a atração momentânea. Eles nos lembram que o amor é uma escolha consciente por quem o outro é — não apenas pelo que aparenta ser. O verdadeiro afeto nasce da decisão de nos comprometer com alguém em sua totalidade: com suas virtudes, suas imperfeições, suas histórias. 

Dostoiévski vai além ao afirmar que o amor é uma arte a ser aprendida. Ele não surge de forma mágica ou instantânea, mas é fruto de esforço, paciência e dedicação. Amar exige vontade, constância e uma disposição diária para crescer ao lado do outro. Amar, portanto, não é um ponto de partida — é uma jornada. 

Num mundo que valoriza o efêmero, esses pensadores nos convidam a resgatar o amor como uma experiência de profundidade, transformação e entrega mútua. É preciso coragem para ir além do superficial e mergulhar na complexidade do outro — e encontrar ali uma beleza que só o coração pode enxergar. Gostou do conteúdo? Não se esqueça de nos seguir para mais reflexões, cultura e inspiração para sua jornada!

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O Espelho, o Olhar e a Beleza Invisível

O Casal Arnolfini, de Jan van Eyck, pintado (1434).

“A beleza das imagens vistas nos espelhos não vem da beleza dos objetos por eles refletidos, mas da perfeição e da pureza de sua superfície. A mínima desigualdade de nível, a mínima poeira bastam para deformar a imagem, mutilá-la, torná-la irreconhecível. O espelho é semelhante a um olhar. Os olhares que têm mais clareza e profundidade são os que recebem e devolvem mais luz: e já não se sabe se essa luz vem do fundo deles ou se eles se limitam a recebê-la. Como espelhos, eles nos entregam alternadamente os aspectos mais mutantes do real por meio de sua invisível presença; e não são de forma alguma alterados por essas imagens passageiras; não retêm nenhum traço delas. O puro olhar, enfim, só apreende do real as cores frágeis que estão fora do alcance da mão, assim como o espelho representa os objetos atrás de si num lugar de onde a substância deles escapou.”

“Existe no livre movimento das pálpebras uma imagem da
atenção voluntária. Pois cabe a nós abrir os olhos e fechá-los; mas
não cabe a nós criar o espetáculo que lhes é oferecido.
O olhar não produz a luz: somente a acolhe. Da mesma forma,
o ato mais perfeito da inteligência é um ato de atenção pura. Mas
a visão é a alegria do olhar; quando o olhar vê, perde sua independência e parece abolir-se: é que se tornou algo uno com seu objeto.”

Louis Lavelle

A beleza das imagens refletidas nos espelhos não vem da beleza dos objetos em si, mas da pureza da superfície que os acolhe. Um leve traço de poeira, uma imperceptível desigualdade, é o bastante para distorcer aquilo que se revela. O espelho não tem luz própria, mas quando limpo, ele devolve ao mundo a sua imagem mais fiel — sem interferir, sem julgar, sem reter. Assim é também o olhar humano quando despojado de intenção e vaidade: um espelho transparente, que se limita a acolher a luz sem querer possuí-la.

Há nos olhos puros uma claridade que não sabemos dizer se lhes pertence ou se apenas os atravessa. São olhares que nos oferecem o real em sua mutabilidade silenciosa, que registram, mas não guardam. Como espelhos, eles não se prendem às imagens que neles passam — e talvez por isso consigam ver mais profundamente.

Ver, nesse sentido, não é um ato de conquista, mas de rendição. Não criamos aquilo que se mostra; apenas temos o poder de abrir os olhos — e essa decisão, esse pequeno gesto voluntário, é já um ato de inteligência sensível. A atenção mais pura é justamente aquela que não força, que não fabrica, que apenas se dispõe. E quando enfim o olhar vê, ele se dissolve: perde sua separação em relação ao que contempla, deixa de ser um sujeito diante de um objeto. Torna-se unidade.

A verdadeira visão, então, não está nos olhos que buscam, mas nos que recebem. E a beleza não é mais aquilo que vemos, mas o modo como vemos — sem ruído, sem desejo, sem pressa. Como um espelho limpo. Como um olhar em silêncio.

Ícaro, Dédalo e as três idades da alma

O Lamento por Ícaro, de Herbert James Draper (1898).

“O homem passa por três idades: a tolice da juventude, a luta da idade madura e os remorsos da velhice.”

Benjamin Disraeli

Poucos mitos ilustram com tanta força a jornada humana quanto o de Ícaro.

Na juventude, Ícaro encarna a tolice da desobediência e o fascínio pelo excesso. Apesar dos avisos do pai, Dédalo, ele se deixa levar pelo entusiasmo, sobe alto demais — até que o calor do sol derrete a cera que une suas asas. Seu voo é belo, mas breve. E termina em queda. Um símbolo eterno da imprudência que frequentemente acompanha o vigor juvenil: querer tudo, de imediato, sem medir as consequências.

Dédalo, por sua vez, representa a maturidade. A fase da luta contínua, da engenhosidade posta à prova, da responsabilidade não apenas por si, mas também pelos outros. É ele quem constrói as asas, traça o plano, salva o filho — e depois carrega o peso da perda. A maturidade, neste mito, não é glória: é resistência. Não é conquista, mas consciência.

E então vem a velhice — não como sabedoria triunfante, mas como memória. Dédalo sobrevive, mas não voa mais. Escapa, mas não esquece. A imagem de Ícaro talvez o acompanhe até o fim: como acontece com tantos que, ao olhar para trás, não veem apenas o que viveram, mas o que poderiam ter evitado.

Nenhuma dessas fases é condenada. Disraeli apenas as revela, como são. Ao reconhecê-las em sua verdade, talvez possamos nos permitir um pouco mais de humildade na juventude, mais coragem com responsabilidade na maturidade — e, quem sabe, um pouco mais de leveza diante do arrependimento.

A solidão essencial do ser humano

Nighthawks – Edward Hopper (1942).

“A solidão da existência humana não significa romper os laços com o resto do universo e tornar-se um eremita intelectual ou metafísico: a solidão da existência humana consiste em sentir-se só e, portanto, enfrentar e encontrar o resto de todo o universo”.

Xavier Zubiri – Natureza, história, Deus.

Vivemos em uma época marcada por distrações incessantes, conexões superficiais e um medo quase instintivo do silêncio. Em meio a isso, falar sobre solidão pode soar desconfortável, quase indesejável. Mas, para Xavier Zubiri — filósofo espanhol do século XX —, é justamente na solidão que o ser humano se encontra com o universo. Uma ideia contraintuitiva, e por isso mesmo urgente.

Para Zubiri, a solidão não é uma fuga do mundo, mas uma condição de presença. Não se trata de isolamento social ou emocional, mas de algo mais profundo: a experiência íntima de estar só diante da realidade. Estar só, aqui, significa despertar — tomar consciência de si mesmo, da vida, da morte, do tempo — e do que pode ou não haver além disso.

Essa solidão essencial é constitutiva do humano. É nesse espaço interno, silencioso, que a pergunta pelo sentido emerge. Fugir dessa solidão é, muitas vezes, fugir de si. O filósofo Pascal já dizia: “Toda a infelicidade dos homens provém de uma só coisa: não saber permanecer em repouso num quarto.” Ou seja, não saber habitar a própria solidão.

Sentir-se só, então, não é cair no vazio, mas ser colocado frente a frente com o mistério do real. A solidão autêntica nos obriga a olhar para além de nós mesmos — para a natureza, para a história, para Deus. Zubiri insiste: essa solidão não rompe com o universo; ela nos abre a ele. É nesse silêncio interior que escutamos o que as vozes da cultura muitas vezes abafam. A inquietação de Santo Agostinho — “Nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Ti” — nasce exatamente desse encontro com a própria insuficiência e da abertura ao transcendente.

Em vez de nos encerrar, a solidão nos coloca em relação com o todo. Não é uma caverna escura, mas uma janela.

Essa mesma tensão é expressa de forma inesquecível na pintura Nighthawks, de Edward Hopper. Em uma lanchonete aberta na noite vazia, quatro pessoas dividem o mesmo espaço — e, ao mesmo tempo, parecem mergulhadas em mundos separados. Ninguém conversa. Ninguém sorri. Ainda assim, estão ali, juntos, silenciosos.

A solidão de Nighthawks não é desespero, é contemplação. Há algo sagrado na cena: uma pausa. Um reconhecimento mútuo de que todos carregam o peso da existência. E, quem sabe, também uma abertura para algo maior.

Talvez Hopper esteja dizendo o mesmo que Zubiri, mas em outra linguagem: estamos sozinhos, sim — mas não estamos isolados.

Em tempos de colapso do sentido, talvez o maior gesto de resistência seja acolher a solidão como espaço fértil. Não como ausência, mas como presença profunda. Como lugar onde a alma escuta — e, quem sabe, responde.